“Climate Policy Makes Politics”: como o PlanClima SP impulsionou a mobilização da sociedade civil
- 30 de jun.
- 5 min de leitura
A revisão do PlanClima SP mostra como uma política pública – mesmo com limitações e entraves – pode gerar mobilização social, conflitos e novas demandas por participação.
Alexandre Fontenelle-Weber*
Victoria Lustosa Braga*

A crise climática não produz somente impactos socioambientais. Ela também reorganiza conflitos, demandas e formas de participação política, à medida em que políticas públicas são pensadas para o seu enfrentamento – inclusive a nível local. No caso da cidade de São Paulo, a recente revisão do Plano de Ação Climática municipal (PlanClima SP) tornou visível esse processo: a existência do próprio plano fez com que organizações da sociedade civil, atores da academia e representantes do Legislativo passassem a se mobilizar em torno da política climática do município.
Esse movimento permite observar uma dinâmica conhecida nos estudos das políticas públicas: as políticas não apenas respondem a conflitos políticos já existentes, mas também podem criar novos conflitos, atores e formas de mobilização. Como identificamos no exemplo paulistano, “climate policy makes politics”.
Cidades como arenas da política climática
A ação climática não envolve apenas escolhas técnicas sobre mitigação e adaptação. Ela também levanta questões sobre quem participa, quem é ouvido e quais interesses orientam as decisões públicas. Devido à multiplicidade de efeitos e à extensão espacial e temporal dos seus impactos, a crise climática produz nos indivíduos e grupos sociais uma série de ansiedades e preocupações que, por sua vez, se refletem em crescentes conflitos e disputas.
A partir desse pano de fundo, o contexto urbano tem emergido como um espaço importante para pensar o potencial de soluções climáticas transformadoras. Defensores dessa perspectiva argumentam que a dinâmica das cidades, considerada mais propícia às interações próximas entre um conjunto diverso de moradores, seria especialmente benéfica para qualificar processos democráticos e inclusivos de formulação de políticas.
Entretanto, é importante avaliar como isso tem ocorrido na prática, sobretudo considerando o caso brasileiro, no qual o envolvimento dos municípios com a temática climática ainda é relativamente recente, passando por uma evolução lenta e fragmentada desde a década de 1990. A inserção da mudança do clima como novo tema da agenda de políticas públicas é um objeto interessante para avaliar em que medida a expectativa de que políticas climáticas locais ampliem a participação social se verifica na realidade.
São Paulo e o PlanClima: quando a criação da política pública é um gatilho para conflito e mobilização
Tomamos como exemplo o caso de São Paulo, no qual identificamos o surgimento recente de uma rede de atores da sociedade civil interessados na discussão da política climática local, em um cenário anteriormente marcado por baixa mobilização e participação.
Os últimos acontecimentos no município revelam um fenômeno há tempos explorado pela literatura: processos nos quais a política pública (policy) afeta a dinâmica e os conflitos políticos mais amplos (politics).
Como veremos, a formalização de um planejamento climático e, recentemente, a oportunidade criada pela sua revisão, fez com que os atores políticos, da sociedade civil e da academia passassem a interagir de forma mais articulada em torno de demandas de conteúdo climático, revelando como “policy makes politics”. Em um processo de retroalimentação, a política pública, por sua vez, foi então influenciada pela própria organização desses atores, que passaram a reivindicar maior participação da sociedade civil nos processos de revisão dos instrumentos climáticos do município. Assim, esse processo mostra também aquilo que Gurza Lavalle e colegas (2019, p. 43) formulam como “o caráter mutuamente constitutivo das relações entre Estado e sociedade civil”.
A institucionalização prévia da agenda climática em São Paulo: espaços restritos e pouca articulação social
A pauta climática foi introduzida na cidade de São Paulo, na passagem da década de 1990 para os anos 2000, sob influência de dinâmicas internacionais e atores transnacionais. Apesar da adoção de lei climática em 2009, a articulação de uma política pública sobre o tema enfrentou problemas e descontinuidades, contando com espaços incipientes e pouco institucionalizados de interação com a sociedade. A estrutura consultiva do Comitê do Clima, previsto em lei, historicamente privilegiou atores de governo e representantes de interesses econômicos, com pouca representação da sociedade civil. Isso fez com que o tema das mudanças climáticas tenha se firmado como algo distante dos atores sociais e da população.

A partir de 2018, foi conduzido um processo de planejamento climático, com participação social restrita, em parte devido ao contexto de pandemia que marcou a reta final da sua formulação. O resultado foi a publicação do PlanClima SP em 2021, instrumento responsável por estabelecer as metas gerais de combate à mudança do clima e sistematizar as ações de mitigação e adaptação a serem adotadas pela cidade até 2050, prevendo momentos periódicos de revisão a cada 4 anos. O Plano propõe dialogar com outros instrumentos municipais, especialmente com planos setoriais. Contudo, sua elaboração foi concentrada em um grupo reduzido de gestores da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, o que tem dificultado essa transversalidade.
A revisão do plano e os limites da participação
Em 2025, teve início o primeiro esforço de revisão e atualização do PlanClima, após os quatro anos iniciais de implementação serem marcados por dificuldades e entraves relacionados, principalmente, à implementação e acompanhamento das ações previstas. Nesse momento, identificamos que emergiu um interesse mais amplo da sociedade civil organizada em torno da política climática. A diferença em relação ao momento de elaboração do plano é que, na revisão, os atores sociais já tinham diante de si um instrumento existente, com metas, ações e lacunas identificáveis, o que tornou a disputa mais concreta.
Houve um movimento inicial da gestão por parte da Prefeitura para convidar organizações interessadas a formarem um Grupo de Trabalho Participativo. Na prática, porém, a interação proposta tinha escopo limitado: consultar e validar propostas já formuladas pela equipe municipal.
Diante desse desenho limitado, os atores sociais mobilizados passaram a se articular para demandar maior participação na revisão. Foram formalizadas reivindicações de representantes da sociedade civil, da academia e do Legislativo, direcionadas à equipe responsável pelo plano, demandando a inserção de propostas específicas na revisão, assim como maiores informações sobre o processo e uma dinâmica de participação e interlocução mais estruturada – o que foi apenas parcialmente atendido.

Entendemos que, apesar de, em outros contextos, as políticas ambientais resultarem diretamente de ações coletivas protagonizadas por movimentos sociais e organizações da sociedade civil, em São Paulo, essa mobilização mais densa ocorreu justamente depois do lançamento do PlanClima, no momento de sua revisão, evidenciando efeitos de mobilização e conflito político gerados pela própria existência do Plano.
Dessa forma, o caso da institucionalização da agenda climática no município de São Paulo ajuda a observar, na prática, como políticas públicas e mobilização social se transformam mutuamente durante as interações entre Estado e sociedade civil.
Essa mútua constituição torna-se visível especialmente no aprimoramento das capacidades do Estado e da sociedade civil, embora com entraves. De um lado, o Estado buscou aperfeiçoar suas capacidades de desenhar instrumentos da política climática e, principalmente, de estruturar espaços de participação e interlocução com a sociedade civil na formulação e acompanhamento de suas iniciativas. Do outro, a sociedade civil, antes organizada de forma dispersa nessa agenda, expandiu suas capacidades de atuação ao se articular em redes e ações coletivas. No entanto, apesar do engajamento dos atores da sociedade civil ao longo do processo e de mudanças nas dinâmicas participativas do PlanClima, as possibilidades de participação nas ações voltadas a esse tema continuaram limitadas, contrastando com visões otimistas acerca do potencial democrático na ação climática local.
O caso do PlanClima SP mostra que políticas públicas podem produzir ou impulsionar novos atores, conflitos e formas de mobilização. Ao prever sua revisão periódica, o Plano abriu uma oportunidade política disputada por sociedade civil, academia e Legislativo. Ainda assim, a participação permaneceu restrita, indicando que políticas climáticas urbanas podem gerar mobilização e aprendizado institucional, mas não garantem processos decisórios efetivamente abertos.
*Alexandre Fontenelle-Weber e Victoria Lustosa Braga são doutorandos em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e pesquisadores do NDAC/CEBRAP e do INCT-Participa.
** Este texto não representa necessariamente as opiniões do NDAC/CEBRAP.




Comentários